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Rádio Metropolitana


O Ouro Que a Moda Demorou Décadas Para Enxergar

     O Ouro Que a Moda Demorou Décadas Para Enxergar


A fotógrafa Kica de Castro em palestra no TED X São Paulo

Como a beleza deixou de pertencer ao padrão e por que uma fotógrafa brasileira percebeu essa mudança antes de a indústria admitir que ela existia.


Durante décadas, a moda repetiu a mesma promessa: beleza como padrão. O que escapava disso não era visto. Era corrigido, ajustado ou simplesmente apagado. Não por acidente, mas por projeto de estética, de mercado e de conveniência social.


A modelo com nanismo Arete Angotti para exposição "O Corpo Dourado da Vitória"


A mudança começou antecipando qualquer discurso e antes de virar mercado.
Antes de diversidade se tornar linguagem publicitária, a fotógrafa brasileira Kica de Castro já fotografava pessoas com deficiência como presença, não exceção. Sem moldura de superação, sem apelo de compaixão. Em 2007, criou a primeira agência de modelos com deficiência no Brasil. Em 2015, levou essa discussão para a televisão com o Viver Eficiente, exibido pela Astral TV e pelo canal Alpha Channel TV. Em dezembro de 2025, recebeu o título de Comendadora Cultural.

Os fatos organizam a cronologia. Mas não explicam o atraso.
O que muda não é o reconhecimento. É o olhar. E ele muda devagar demais.
Durante muito tempo, a pessoa com deficiência só existia na cultura visual como falta, superação ou exceção. Fora disso, simplesmente não existia. O trabalho de Kica insiste em outro lugar: vida comum. Não como ideal, mas como fato. Isso ainda não é confortável para parte da indústria.


Ariete Angotti, modelo com nanismo nos bastidores

A nova exposição virtual, “O Corpo Dourado da Vitória”, condensa essa tensão.

Os corpos recebem pintura dourada assinada por André Lima. O gesto poderia ser apenas ornamental, mas não é. O ouro não suaviza, não corrige e nem aproxima esses corpos de um padrão conhecido. Ele apenas expõe o que sempre esteve ali.
“Minha profissão sempre foi associada à ideia de corrigir imperfeição”, diz André Lima. “Aqui não havia o que corrigir. Isso muda tudo, porque você percebe o quanto do seu trabalho foi treinado para esconder pessoas, não para olhar para elas.”
Ele faz uma pausa. Depois completa, mais baixo:

“E isso é estranho de admitir quando você trabalha com beleza.”

Entre as imagens está Ariete Angotti, mulher com nanismo.

Sua presença não busca representar um grupo nem funcionar como símbolo. Ela ocupa o espaço da imagem de forma direta.

“O nanismo sempre chegava antes de mim”, diz. “Antes do meu nome, antes de qualquer conversa. Nessas fotos isso não desaparece, mas deixa de ser o que define tudo.”
Ela hesita um segundo.
“Isso muda a forma como você respira numa imagem.”
Não há tentativa de transformar diferença em metáfora. Nem suavização do que ela significa no cotidiano. O que existe é presença. Ainda instável dentro desse sistema de imagens.
Kica de Castro evita qualquer leitura heroica do próprio percurso.

“Seria falso dizer que isso muda a moda”, afirma. “A moda muda quando a sociedade muda. Eu só continuei fotografando pessoas que não estavam sendo reconhecidas como belas. Durante anos isso foi invisível também. Depois virou interesse. Agora virou discurso. Eu continuo no mesmo lugar.”


A modelo Ariete Angotti com o maquiador André Lima

Na televisão, o diagnóstico segue semelhante.

“A televisão brasileira ainda trata a deficiência como exceção”, diz Bete Mancuso, diretora executiva do canal Alpha Channel. “Ela aparece em campanhas de sensibilização, mas quase nunca na rotina. O Viver Eficiente nasceu para ser verdadeiro e não especial.”

O cenário mudou, mas de forma desigual. Em alguns pontos, lentamente. Em outros, só na superfície.

Pessoas com deficiência seguem fora da maioria das campanhas de grande alcance e quase ausentes dos espaços onde decisões de imagem são tomadas. O discurso de inclusão avançou mais rápido do que a prática consegue sustentar.

E isso cria uma ilusão confortável de mudança.

O Corpo Dourado da Vitória não propõe uma nova definição de beleza. Ele expõe uma limitação antiga: a de uma cultura que confundiu padrão com verdade.

O ouro não transforma esses corpos. Nem tenta.

Ele apenas revela, sem conforto, o quanto tempo foi necessário para que o óbvio pudesse, enfim, ser reconhecido. E ainda assim, não completamente aceito.

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